23/04/2017

Poema em Linha Reta - Fernando Pessoa


Sempre gostei do coiote, personagem do desenho animado "The Road Runner" da década de 50. Ele nunca desistia, apesar de seus planos não serem os melhores. Lembro que quando ele tinha um ótimo plano, ou ele esquecia algum detalhe ou ele fracassava porque era ansioso demais.

Claro que é apenas uma animação, mas nos mostra que o fracasso é um estado temporário e não uma pessoa. Mostra que devemos continuar a lutar por nossos objetivos de maneira inteligente.

Em certos momentos não somos tão inteligentes quanto poderíamos e isso ocorre por fatores internos, como cansaço, depressão, raiva, por exemplo; e por fatores externos, como outras pessoas, condições climáticas e conjunturas econômicas, por exemplo.

Se não podemos controlar fatores externos, temos que nos esforçar para que os fatores internos não ponham tudo a perder, pois, se o fracasso é um estado temporário, isso pode durar muito mais do que gostaríamos.

Grande abraço!

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,



Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;


Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado


Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,


Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."


Nota:

1 -   Significado de Oiço: O mesmo que ouço, do verbo ouvir.

Um comentário:

  1. Muitos conhecem nomes de sucesso mas poucos sabem o desafio que foi enfrentado para conquistar o objetivo (sem incluir aí armações ou gente projetada por terceiros). Você precisa ser cachorro louco no dia a dia.

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