17/05/2018

[Texto] Lembranças de Morrer (2013)/ Kleiton Gonçalves


Imagem: Bruno Dayan

"Ainda pensei nos coitados dos funcionários que limpariam toda a sujeira de meu sangue e miolos no piso, deck e banheira. Depois, não me preocupei porcaria alguma. Eles que se virassem. Nunca gostei desses mal educados que atendem em hotéis e motéis. Nem de garçons. Nem de arrumadeiras. Nunca gostei de meus vizinhos e colegas de trabalho; na verdade, de ninguém.



E o dono do motel que desse suas cambalhotas com a polícia e má repercussão de meu suicídio. Sempre me cobraram uma fortuna naquele pulgueiro. Desta vez eu daria prejuízo e um belo calote.


Jamais poderia estourar a cabeça em minha casa, sempre limpa, perto de meus gatos e cachorro. Nem de minha mulher. A contribuição dela, para minha morte, foi mínima. E sei que, mais à frente, ela morrerá mais sozinha do que eu (assim espero!).


Em algum lugar distante, escondido, também não poderia me matar. Muito menos dentro do carro, sempre bem cuidado. Sabia que sentiria um grande momento de paz e conforto nos últimos momentos, e precisava aproveitar ao máximo, como fiz. No escritório, nem pensar; com pessoas conhecidas, depois, comentando como fiquei asqueroso com um baita rombo na cabeça?


Entrei na água. Relaxei. Tomei apenas três doses de vodca. Achei que deveria deixar um pouco no copo, para a eternidade. A água estava no ponto certo: nem fria nem quente. Morna. Fechei os olhos e relaxei tanto. Nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Quase adormeci, antes de esticar a mão para o lado, pegar o velho cano enferrujado e disparar contra a cabeça.


Bem na cabeça. 
Emporcalhou tudo."


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